HISTÓRIA, CULTURA NORDESTINA E METAL PESADO - BANDA CANGAÇO RECIFE - PE
Histórias do cangaço do século XIII e XX,
cultura do sertão e valores nordestinos, são base para as músicas da banda
CANGAÇO, uma mistura de death, folk metal e sons regionais. O power trio é
formado por: Rafael Cadena (guitarra e vocal), Magno Barbosa lima (baixo e
vocal) e Mek Mouro (bateria e percussão)
Movrocker - Por parte das autoridades, lampião simbolizava a brutalidade, o mal, uma doença que precisava ser extirpada. Para uma parte da população do sertão, ele encarnou valores como a bravura, o heroísmo e o senso da honra. Qual a percepção de vocês em relação aos cangaceiros, sobretudo o mais famoso de todos, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião?
Cangaço - Uma peça chave para um povo de uma
época. O nome Lampião, e o próprio cangaço, não por acaso
ecoam até hoje. Independente de julgamentos acerca de suas atitudes, o lugar
foi conquistado no inconsciente coletivo e isso é matéria prima da arte. Quanto
mais pontos de vista diferentes, mais rica é a observação do todo.
Movrocke r- A cultura da
região Nordeste é bastante diversificada, uma vez que foi influenciada por
indígenas, africanos e europeus. Os costumes e tradições muitas vezes variam de
estado para estado e é nesse cenário cosmopolita e cultural que a banda agrega
o Death Metal. Falem um pouco sobre
isso!
Cangaço - O Nordeste foi a primeira região em
que diferentes povos interagiram na mistura que está dando origem ao Brasil. Uma nação ainda em formação,
evidentemente jovem quando comparada com outras do mundo. Atentando para o fato
de que uma nação é muito mais que um país. Por isso passamos por processos
naturais da juventude de qualquer ser. Experimentar, falar e fazer coisas de
forma inconsequente. Sendo que no Nordeste, esse processo começou há mais
tempo. De alguma forma, há mais entrosamento e aceitação entre as diferentes
matrizes culturais. O rock, foi um elemento relativamente recém-chegado nessa
mistura, mas logo assimilado, vide o próprio Alceu Valença e Zé Ramalho nos
anos 70. Apenas contribuímos com o que surge como demanda na nossa geração, o
Metal. Mas o processo de mistura tem suas origens no início da interação dos
diferentes povos citados na pergunta. E quem misturou melhor essa panela até
hoje foi Luiz Gonzaga
Movrocker - Ritmos
tradicionais nordestinos como Baião, Maracatu e Forró, são evidentes e percebidos nas músicas da banda. Como vocês escrevem e constroem as
composições?
Cangaço - Toda
essa fusão acontece de forma muito natural para nós porque esses ritmos fazem parte do nosso cotidiano. É bem
difícil que um nordestino criado no Nordeste não tenha contato com esses tipos
de músicas tradicionais em algum momento de sua vida. Então tudo flui de forma
natural, experimentamos bastante. O ouvido é o nosso guia. Se está soando bem
nós seguimos em frente.
Movrocker - De repente uma sigla virou o mundo
de cabeça para baixo. Covid-19 e #ficaemcasa estão em todas
as mídias. Isso nos traz, além de dúvidas e preocupações, um novo olhar para a
realidade. A partir do isolamento, o setor cultural foi o que mais sofreu e
ainda sofre paralisação e retrocesso.
Como a banda está atuando nesse
período?
Cangaço - No início do ano
conseguimos finalizar o EP porque as músicas já estavam gravadas,
então conseguimos trabalhar nos detalhes de forma remota. Foi uma experiência
estranha mas terminou se demonstrando mais eficiente do que se esperava.
Conseguimos trabalhar com o produtor e fazer o processo de mixagem de forma
online e ficamos satisfeitos com o resultado. A partir daí estamos em pausa por
conta da pandemia. Apesar de já ter muita gente voltando aos trabalhos, achamos
um tanto arriscado fazer o mesmo principalmente pela proximidade com pessoas e
parentes no grupo de risco. Estamos buscando soluções para voltar a ativa,
apesar da limitação da distância.
Movrocker - União entre as tribos e a cena
underground, é o que nós, do Movrocker pregamos e acreditamos. É inegável que
as bandeiras políticas estão separando e dividindo a cena. Como vocês veem essa questão?
Cangaço - Não há dúvida que a união da cena é
importante para as coisas continuarem acontecendo, mas
não podemos nos abster enquanto artistas se tivermos vontade. É da natureza da
arte ter um discurso e não é nenhuma novidade. A apatia política pode ser
bastante perigosa, nós precisamos estar atentos, temos que ser críticos.
Infelizmente não podemos nos dar ao luxo de ter uma população politicamente
consciente, então esse discurso de "nenhum político presta, metal não
combina com política" tem que ser desmentido. Claro que ninguém precisa
ficar fazendo palanque para político, mas é importante enquanto artistas
levantar questionamentos. A gente tem que lembrar que o governo atual se elegeu
numa eleição com um número enorme de abstenções de voto e estamos sofrendo
duros golpes na gestão da pandemia e principalmente na cultura. Fiquem atentos,
se informem, conversem, discordem, concordem, mas não tentem ignorar que a
política está em todo lugar.
Movrocker – O
thrash metal começou na década de 80 e a realidade do cenário musical brasileiro era outra. O rock estava em
alta, bandas como Sepultura, thrash Viper e Angra, ambas metal venderam muitos álbuns. Atualmente
vemos o estilo em segundo plano. Falem
um pouco sobre isso!
Cangaço - Ninguém vende muitos álbuns hoje em
dia, não é verdade? As plataformas de streaming chegaram e tudo parece mais
cômodo para o público. Tudo está no aplicativo. Nós enquanto artistas ganhamos
mais visibilidade do que antes, porém o valor pago pelas audições é altamente
questionável.
De qualquer forma achamos admirável
que o headbanger se comporta como nenhum outro público em relação a isso.
Continuam comprando camisas, cd's (mesmo as vezes sem ter onde tocar hoje em
dia), tudo para dar suporte às bandas. O headbanger dá um suporte incrível para
as bandas. Isso é bastante motivador.
Movrocker – A banda lançou duas demos em
2010, em 2011 lançou o EP Positivo, em 2013 lançou o então álbum Rastros e em
2015 mais um EP, intitulado Retalhado, com composições de grandes artistas como
Zé Ramalho e Alceu Valença, ambos Nordestinos. Comentem a respeito!
Cangaço - A ideia por trás desse EP foi criar uma ponte entre as
pessoas que curtem nosso trabalho e os artistas
nacionais que nos influenciam tanto. Claro que esses artistas são mundialmente
reconhecidos, mas às vezes o público do metal tem um pouco de resistência em
ouvir com atenção artistas de outros segmentos. Então tentamos facilitar um
pouco as coisas com essa roupagem de suas obras. Foi uma experiência excelente!
EP INEVITÁVEL.
Cangaço - No EP Inevitável nós
queríamos trazer algo um pouco diferente dos anteriores em relação a timbres. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar com o
sanfoneiro e produtor Vinicius de Farias não pensamos duas vezes. Ele
incorporou a sanfona ao nosso de uma forma muito particular sem soar óbvio.
Explorou várias texturas com acordes dissonantes e conseguiu criar uma
atmosfera agressiva com seu instrumento. Foi espetacular. A repercussão tem
sido bem positiva até o momento. Ficamos muito felizes com o resultado. O
trabalho sensível do produtor do disco, Adriano Duprat, também foi fundamental
para chegarmos no que consideramos uma excelente e adequada sonoridade.
Movrocker - Quais suas principais
influências musicais e não musicais (cinema, literatura, etc)?
Cangaço - Alceu
Valença, Luiz Gonzaga, Zé Ramalho, Nile, Annihilator, Gojira, Alejandro
Jodorowsky, Glauber Rocha, Euclides da Cunha, Frederico Pernambucano de Mello
Movrocker – Espaços, mídia e
cenário local. Como a banda se
relaciona e como é projetada?
Cangaço - A nossa cidade vive mudando os espaços de shows. Vivemos bons
momentos com algumas casas dedicadas ao rock/metal autoral, mas no momento
estamos um pouco órfãos disso. Em relação a mídia não temos tanto espaço
normalmente, mas tivemos ajuda de grandes jornalistas como Wilfred Gadêlha que
nos permitiu aparecer em alguns jornais da cidade, e no renomado documentário
sobre a cena de metal pernambucana chamado PEsado. Mas a maioria dos contatos e
das notícias vinculadas a nós vem da internet com blogs e sites
especializados.
Movrocker – Projetos e futuro.
Cangaço - Primeiramente viver o mundo pós pandêmico. Depois nos
reestruturar, voltar aos ensaios e voltar a fazer shows para executar as
músicas do EP Inevitável ao vivo. Estamos sentindo muita falta disso e principalmente, do nosso público.
Romário Silva - Em nome do Movrocker,
agradeço pela gentileza em nos conceder essa entrevista e
desejo muito sucesso na trajetória da CANGAÇO.



Entrevista bacana
ResponderExcluirEntrevista bacana
ResponderExcluirMoro em Recife, mas não conhecia a banda.
ResponderExcluirComo pode uma banda com essa criatividade não fazer sucesso? Cangaço deveria estar no topo.
ResponderExcluir
ResponderExcluirCaramba, que entrevista incrível! Eu não conhecia a banda, mas fiquei impressionado com a mistura da cultura nordestina com o metal. É muito legal ver como as influências regionais, como o maracatu e as lendas, se conectam com o som pesado e criam algo tão original. Dá pra sentir o respeito pela história e pela cultura do Nordeste em cada palavra.
Já vou correr para seguir a banda nas redes sociais e acompanhar o trabalho deles. Ganhou mais um fã! 🎸🔥